15 março 2013

ROTINA


O filósofo Heidegger afirma ser a rotina a responsável por experimentarmos segurança em relação à nossa fragilidade. Seres vivos que somos, estamos suscetíveis às intempéries do existir. Contudo, segundo o filósofo, nos entregamos a rotina no intuito de “garantirmos” nossa existência por tempo indeterminado.
Desse modo, programamos situações diversas e, com isso, estabelecemos um acordo íntimo conosco, o qual nos possibilita a tranquilidade em relação à probabilidade do nosso fim. Por essa razão, somos propensos a buscar situações rotineiras e, facilmente, nos sentirmos confortáveis quando inseridos nelas. Porém, ao nos entregarmos à rotina também podemos nos expor. O não permitir um modo de “despertar” da sequência de atividades as quais nos submetemos, pode nos tornar autômatos.
Justificamos tais situações com explicações variadas. Esquecimento, demasiados compromissos que comprometem nosso tempo, ocupações importantes as quais se sobrepõem a outras de menor monta, entre outras. O importante é nos sentirmos tranquilos em relação aos nossos deslizes quando a rotina nos ampara.
Entretanto, há ocasiões nas quais o nosso deslize pode assumir um valor comprometedor. Até chegar ao ponto de colocar em risco a nossa integridade física ou emocional, ou de outrem. Quando isso ocorre pode significar a necessidade de um momento para “despertar” e rever nosso modo de ser e agir relacionado ao nosso existir.
Esse momento costuma desaparecer em meio aos nossos afazeres rotineiros. Por isso, é necessário nos permitirmos alguns instantes nos quais possamos experimentar sensações diferentes das habituais. Ocasiões de lazer ou algo diferente do costumeiro. Como, por exemplo, nos permitirmos atentar para algum detalhe mesmo que ele faça parte de nossa rotina.
Esse detalhe pode consistir em assistir por alguns segundos o pôr do sol, saborear um suco com calma, apreciar o cheiro que a chuva faz emergir do chão. Ou seja, algo que nos permita “desligar o automático” em que nos colocamos quando nos aprofundamos na rotina.
Ao possibilitar momentos voltados para o nosso próprio bem estar, proporcionamos a amplitude do aprimoramento de quem somos. Permitimos nosso desenvolvimento pessoal de modo considerável. Culminando, desse modo, em uma existência com maior plenitude de sentido.

Márcia A. Ballaminut Cavalieri
Psicóloga CRP 06/95124

08 março 2013

O LADO BOM DA VIDA


A referência ao lado bom da vida pode conduzir nosso pensamento a locais de veraneio, reuniões com amigos, viagens agradáveis, entre tantas outras situações as quais nos remetem a lembranças ou planos, de ocasiões em que experimentam-se prazer e contentamento.
No entanto, o filme em cartaz nos cinemas: “O lado bom da vida”, nos apresenta, logo em seu início, uma situação pessoal e familiar a qual se opõe a ideia que o título incita em nossa imaginação. Um rapaz com problemas psiquiátricos e com uma situação pessoal bastante conturbada, devido a eles, retorna ao convívio com os pais. Contudo, contradizendo as expectativas, o ambiente familiar não aparenta ser o local ideal para o sucesso da melhoria do jovem. E, ainda, na tentativa de ajuda em seu processo de recuperação, suas amizades o levam ao contato com uma jovem também em reabilitação de um problema psicológico.
As relações que permeiam a vida deste jovem induzem à conclusão da impossibilidade em aventar-se sua recuperação a contento. No entanto, após diversos contratempos, a jovem amiga do rapaz o leva a um outro modo de olhar para os acontecimentos a sua volta. Ao permitir-se um olhar diferente do ocorrido até então, o jovem torna-se “capaz” de perceber – o lado bom da vida.
O filme reafirma uma questão há muito ressaltada: o que é bom? Qual seria o lado bom em se viver? Abraham Maslow, psicólogo, propôs uma hierarquia de necessidades que seriam importantes para ser possível encontrarmos um equilíbrio psíquico. Isto é, estando tais necessidades satisfeitas estaríamos aptos a cuidar de nossas questões emocionais. 
É comum estabelecermos como primordial o alcance de algumas metas para nos sentirmos felizes; e essas metas, em sua maioria, estão de acordo com as necessidades sugeridas por Maslow. Contudo, elas podem ocupar nosso tempo e energia, a tal ponto de nos privar de olhar para o que de bom se apresenta no momento.
Ao oferecermos um olhar um pouco mais generoso à nossa realidade, temos a chance de nos tranquilizarmos em relação aos nossos sonhos e planos. Heidegger salienta estar o adoecer conectado ao nosso distanciamento do presente. A história do filme denota a importância em apreciarmos nossas possibilidades atuais e, então, nos habilitarmos a ampliar nossas alternativas.
Quando nos permitimos refletir acerca de nós mesmos damos lugar a uma chance de proporcionarmo-nos a amplitude de nosso rol de oportunidades. Pois, ao mudarmos o modo como divisamos determinadas situações, somos capazes de vislumbrar desfechos diferentes para elas. E, assim, possibilitarmos suscitar “o lado bom da vida”.

Márcia A. Ballaminut Cavalieri
Psicóloga CRP 06/95124

01 março 2013

VIVER E MORRER


Clarissa Pinkola Estés, em seu livro “Mulheres que correm com os lobos”, destaca ser a nossa grande tarefa aprender a compreender o que deve viver e o que deve morrer em nosso processo de existir. Isto é, nos permitirmos habilitar a nós mesmos a distinguir aquilo que deve “continuar” a fazer parte de nós e o que deve ter “nossa” permissão para terminar, ou seja, morrer.
Muitas vezes nos sentimos inseguros diante de situações as quais solicitem algum tipo de “despedida”. A conclusão de alguma atividade, o fim de um compromisso seja ele de qualquer ordem, uma mudança na aparência, entre muitos outros exemplos. Porém, o importante é nos permitirmos uma abertura ao mundo e ao que ele nos apresenta, de modo a assentirmos o exercício da “separação”. Ou seja, estarmos aptos a identificar, com o máximo de clareza, a necessidade de mudança.
Contudo, é frequente o conforto trazido a nós por causa da rotina, (e a filosofia de Heidegger confirma essa afirmação). No entanto, quando percebemos alguma ameaça a essa rotina é comum buscarmos formas de protelarmos a solicitação de movimento que a mudança nos convoca.
Viver e morrer faz parte do movimento de nossa existência. É preciso possibilitar o fim de algo, mas, para isso acontecer, é essencial nos tornarmos capazes de perceber as razões que nos conduzem a determinada situação. Assim, proporcionamos chances do novo se apresentar. Sendo que esse novo pode consistir apenas em uma simples conclusão em relação a uma experiência vivida.
É comum sonharmos com o esquecimento das situações mais desagradáveis de nossa história. Desejamos, com frequência, o desaparecimento de nossa lembrança das passagens constrangedoras vivenciadas. Contudo, se considerarmos sermos o resultado de nossas experiências, o desaparecimento de qualquer uma delas representa grande alteração em nosso modo de ser atual. Se fossemos capazes de “apagar” eventos vividos, não poderíamos nos esquecer que também mudaríamos o resultado culminante em quem somos atualmente com todas as nossas habilidades , competências e limitações.
Óbvio é não ser necessário vivenciarmos todo tipo de situação para termos o conhecimento delas. No entanto, conceder a nós mesmos a alternativa de valorizarmos o vivido nos possibilita a oportunidade de estabelecermos uma relação de paz com nosso passado e suas histórias. Desenvolvendo, igualmente, a capacidade de admitirmos o movimento de morte e vida que constitui nosso processo existencial.
Portanto, permitimos em um número maior de vezes nossa chance de acatar as mudanças quando elas se apresentam como possibilidades. Desse modo, ainda poderemos experimentar os receios envolvidos na perda de algo. Entretanto, permitiremos o movimento necessário o qual permite sentirmos o fluir de nosso existir de modo harmônico e favorável ao progresso do nosso ser.

Márcia A. Ballaminut Cavalieri
Psicóloga CRP 06/95124

22 fevereiro 2013

AMOR PRÓPRIO E EGOÍSMO


O respeito e bem querer voltado a nós mesmos pode ser interpretado como egoísmo. Ou seja, um sentimento deveras exacerbado em relação ao nosso bem estar que nos faz colocar em prática um amor excessivo para conosco e desconsiderar, assim, os interesses alheios. O convívio social reprova essa prática.
No entanto, como em todos os aspectos, faz-se importante refletir a respeito dos extremos. Isto é, se voltarmos toda a nossa atenção e cuidado ao bem estar do outro, incorremos na possibilidade de expor um modo de ser o qual pode assumir uma imagem digna de admiração por um grande número de pessoas. Porém, também corremos o risco de relegarmos o nosso cuidado a uma ocasião que pode tardar.
O amor próprio consiste em permitirmos o cuidado com o nosso bem estar de modo a nos realizarmos como seres existentes e com possibilidades. Isso representa exercitarmos cuidados básicos com nossa saúde, aparência e emoções, mas, consiste também em respeitarmos nossos limites bem como nossas capacidades.
Os conclames atuais nos conduzem a comportamentos acelerados em relação ao nosso próprio ritmo. Somos “convidados” a agir de modo totalmente competente, e nos sentirmos satisfeitos embora nossos desejos permaneçam apenas no âmbito do planejamento.
Contudo, ao nos portamos dessa maneira iniciamos um processo no qual é possível exigirmos resultados sem estarmos totalmente habilitados. Desse modo, ficamos a mercê de lesionar nosso equilíbrio físico e psíquico, em benefício de algo o qual talvez nem ao menos compreendemos.
Em nosso ritmo “adequado” ao momento social atual, podemos deixar de lado questões importantes referentes às nossas necessidades e desejos. Então, permitirmos que o cuidado para conosco inicie com um ato nosso voltado para nosso bem estar. Isso pode, em um primeiro momento, assumir o aspecto de um ato egoísta. Todavia, ao consentirmos nos amarmos de modo especial, atento e cuidadoso, também possibilitamos amenizar nossas dores e angústias. Tornarmo-nos seres com possibilidades plenas de satisfação. Desse modo, usufruir dos prazeres em estar em boa companhia pode ter início no convívio com a pessoa que somos. Isto é, exercitarmos atitudes as quais permitam nos sentirmos confortáveis em nossa própria companhia.

Márcia A. Ballaminut Cavalieri
Psicóloga CRP 06/95124

15 fevereiro 2013

CONTRADIÇÕES


Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, destaca que ferramentas de relacionamento como o Facebook, Twitter, entre outros, possibilitam o “contato” com outras pessoas sem a necessidade de iniciarmos uma conversa, da qual possa apresentar o risco de tornar-se “perigosa e indesejável”. Isso, porque o “contato” pode ser desfeito a qualquer momento, para isso apenas basta que o diálogo se encaminhe numa direção indesejada.
Da mesma forma, conforme afirma Bauman, no nosso mundo “líquido” e moderno somos ansiosos por relacionamentos duradouros, mas ao mesmo tempo queremos que eles sejam leves e frouxos, fáceis e sem frustrações. Ou seja, desejamos nossos sonhos, mas não queremos suas consequências possíveis, o que se pode chamar de contradição.
Em nosso processo de ansiar por algo pode ocorrer, em um número considerável de ocasiões, de relegarmos a um plano que cause menos desconforto a realidade conectada aos riscos em nos relacionarmos. Por isso, torna-se tentador e “seguro” os relacionamentos nos quais temos “total controle”, de modo a podermos nos desconectar a qualquer momento.
No entanto, um desejo um pouco mais rudimentar nos movimenta em direção ao outro. Isto é, buscamos de todas as formas possíveis nos relacionarmos com quem se apresenta ao nosso convívio. E desejamos que tais relações assumam papel duradouro oferecendo segurança. Porém, com as facilidades da atualidade moderna, apresenta-se na mesma proporção a possibilidade de nos colocarmos nessas de relações de um modo distante e ilusoriamente seguro. Pois, com a “ilusão” do não conectar-se de modo mais intenso também alimentamos a ideia de sermos capazes de não sentir e, por conseguinte, nos privarmos do sofrimento iminente.
A todo o momento estamos sujeitos a diversos riscos. O risco de nos decepcionarmos, o de morrermos, ou seja, nossas certezas são, na verdade, repletas de “contradições”, pois podemos estar vivos ou não, nos contentarmos ou não. Mas, ainda assim, colocamos em prática nossa confiança no porvir e na certeza deste.
Martin Heidegger, filósofo, salienta vivermos sob o medo do porvir, e esse medo nos conduz a um modo de proteção o qual despreza a possibilidade do fim. Então, desse modo, nos tornamos confiantes e “tranquilos”. No entanto, é necessário nos lembrarmos de tais incertezas de tempos em tempos, para nos habilitarmos a permitir a presença dos riscos em nosso existir.
As relações não nos oferecem certezas, apenas possibilidades. Mas, somos indivíduos que necessitam delas para saciarmos nossa busca pela completude. Sendo assim, ao compreender as “contradições” envolvidas no existir, nos aproximamos da possibilidade de atingirmos realizações pessoais das quais nos permitam uma existência mais próxima da satisfação. Assim passamos a levar em conta que as contradições fazem parte do processo, de modo a nos impulsionar para a continuidade.  

Márcia A. Ballaminut Cavalieri
Psicóloga CRP 06/95124

07 fevereiro 2013

IMEDIATISMO


Os conclames sociais atuais nos convidam a atitudes que apresentem resultados imediatos. Ou seja, qualquer “movimento” nosso só é constituído de valor efetivo se proporcionar rapidamente uma consequência. No entanto, é comum não nos darmos conta de que resultados e consequências compõem um mesmo referencial.
Na rotina do dia-a-dia deixamos de lado a reflexão. Seja ela embasada em temas profundos ou superficiais, o refletir toma um tempo do qual nem sempre estamos propensos a disponibilizar. Permitimo-nos envolver em um ritmo no qual o tempo tornou-se escasso para realizações passíveis de representar uma lacuna em nossa existência. Isto é, não nos atentamos para o fato de que ao desdenharmos alguns traços integrantes de nosso modo de ser também influenciamos o modo como vamos ser e sentir.
Clarissa Pinkila Estés, em seu livro “Mulheres que correm com os lobos” afirma termos deixado de lado nossa porção selvagem, isto é, um lado “animal” do qual todos nós compartilhamos. E, segundo a autora, ao dispormos de tal atitude comprometemos nossa capacidade para vivenciar de modo pleno as oportunidades de convívio e desenvolvimento pertinentes ao nosso existir.
Ao nos afastarmos de sensações peculiares e rotineiras também nos afastamos da possibilidade de reflexão. Quando nos envolvemos nos afazeres diários sem possibilitarmos a nós mesmos um momento de “prazer”, seja uma sensação, uma companhia agradável ou ainda, um repouso rápido; também nos privamos da oportunidade de estabelecermos um ritmo à nossa existência o qual possibilite experimentarmos, de modo pleno, as ocasiões em que somos convidados a nos relacionarmos das formas mais variadas.
Somos seres constituídos e que se desenvolve a partir do relacionar-se. Quando assumimos a decisão de nos permitirmos conviver sem atentar para as particularidades das relações deixamos de lado a chance de desenvolvermos o que temos de primário e essencial – as sensações. E, com tal comportamento podemos por em risco nossa integridade pessoal, intelectual e emocional.
Portanto, talvez constitua de importância relevante usufruirmos das oportunidades de refletir acerca do momento vivenciado, para nos possibilitarmos um número mais amplo de alternativas relacionadas às nossas escolhas. Para, desse modo, nos tornarmos habilitados a optar entre resultados imediatos ou consequências às quais temos capacidade para lidar de modo mais duradouro.

Márcia A. Ballaminut Cavalieri
Psicóloga CRP 06/95124

01 fevereiro 2013

SENTIR


A cada novo dia é possível afirmar estarmos adiante no que concerne o desenvolvimento intelectual de modo geral. Novas descobertas, novas formas de analisar, medir e “provar” diversos fatos e situações tornaram-se algo trivial em nosso dia-a-dia. Compartilhamos a satisfação com o progresso de nosso desenvolvimento como um todo. No entanto, em alguns momentos, podemos experimentar certa consternação em relação aos sentimentos.
Não é incomum presenciarmos, de modo mais próximo ao nosso convívio, ou não, alguém em pleno exercício do que parece ser uma batalha contra sensações e sintomas dos mais variados tipos. Com um olhar um pouco mais atento, podemos ser capazes de detectar, quase que em sua generalidade, algum traço de ansiedade, depressão ou medo subentendido nessas sensações e sintomas. Isto é, características facilmente localizadas nas diversas síndromes e transtornos muito comuns na atualidade.
Em uma breve reflexão podemos concluir viver num momento em que essas situações tornaram-se rotina e, sermos, desse modo, induzidos a crer que tal rotina representa algo o qual precisamos aprender a conviver, por tratar-se de um fato inevitável. Contudo, essa conclusão pode não significar a totalidade do processo. Se nos permitirmos um olhar um pouco mais cuidadoso, talvez possamos detectar uma carência no quesito sentimento.
No transcorrer do crescimento e desenvolvimento pessoal, nem sempre nos atentamos para o fato de que o sentir é parte importante de todo o processo envolvido em nosso progresso. Cuidamos de modo peculiar do aprimoramento de nossa intelectualidade, praticidade e racionalidade. E, em muitas ocasiões, relegamos a um plano demasiadamente secundário nossos sentimentos.
Porém, tal atitude não se manifesta de modo isento. Isto é, a escolha em não “cuidar” de nossos sentimentos apresenta consequências as quais podemos não levar em conta no momento em que não assumirmos os riscos envolvidos nessas decisões.
Então, é de suma relevância nos manter conscientes de nossas escolhas, porque elas constituem um processo de liberdade. Mas, não podemos nos permitir descartar de modo “definitivo” que as consequências são inevitáveis. Mesmo quando optamos por não olhar para o que se apresenta a nós como algo gerador de algum desconforto de qualquer tipo.

Márcia A. Ballaminut Cavalieri
Psicóloga CRP 06/95124